quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Estava eu no banco, me endividando um pouco mais com o capitalismo, quando um homem, que acompanhava sua esposa no caixa eletrônico ao lado, me olha e volta seus olhos para a mulher, que entendendo o que seus olhos queriam dizer, decide traduzir em palavras.

- Ainda acham isso normal. Vê se pode...

Essas microfísicas do poder me circundam todo o dia. Em todos os espaços. Estar em espaços públicos me é sempre motivo de ansiedade... eu nunca sei quando uma dessas pessoas se sentirá no direito de me agredir fisicamente. Pois as agressões verbais, como disse, já me são rotina.
Minha insegurança vai ao extremo de nem conseguir levantar a cabeça enquanto ando. Sigo pensando: - Quais são os critérios para definir normalidade neste mundo tão plural, tão diverso e tão artificial quanto é a vida em sociedade. Uma pessoa que se enche diariamente de cosméticos, que pinta o cabelo das cores que toda farmácia oferece, que se empanturra com venenos industrializados, que se droga na legalidade. Pessoa essa que quando não está satisfeita com o corpo modifica-o com plásticas e ninguém julga, ninguém questiona. Essa é a pessoa que me fala sobre normalidade. Essa pessoa que acha normal discriminar alguém em alto e bom tom.
Domingo estão todos lá, dentro daquele antro de charlatanices se achando as melhores pessoas do universo...

Ainda bem que eu não sou normal. Agora só me falta espaço neste mundo.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Do que adianta escrever, se de nada isso vale.
Expor minha dor para outros acharem que vale a pena sentir o que sinto.
Prefiro morrer. Não gosto de sofrer. Sofro porque amo.
O amor é meu inferno.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Meses sem poesia ou reminiscências de uma outra vida

Meio oco pra poesia
que o eco chega a estremecer minha paz
esta paz que do fundo avisa
é vazio, é medo,
lembrança daquilo que jaz
há tempos...
de fantasmagoria
que a sorte sempre que pode
não me apraz
- eu quero,
não posso!
pois a vida não é para os fracos
que jogam os dados
e que sabem:
não ganham jamais.

Pato Branco, 04 de setembro de 2015.

sábado, 2 de maio de 2015

Insubstancialidade da vida

Eu fico horas, dias, semanas, meses a pensar na forma como eu lido com os meus sentimentos. Na forma como eu os objetivo, na forma como eu os transfiro para as pessoas(s) com quem me relaciono, seja(m) essa(s) pessoa(s) amiga(s), professora(s) e professore(s), familiar(es), ficante(s), (ex-)namorado(s), etc... e nessas retrospectivas eu cheguei à evidente constatação que eu sempre saio, de alguma forma, machucado, decepcionado, irritado, enfim, saio numa sintonia completamente diferente da qual eu entrei naquela(s) relação(ões). Para não dizerem que estou me colocando como vítima injustiçada "first world's problems", reconheço que esse é um sentimento muitas vezes universal, que atinge diversas pessoas. E é isso que me faz ficar ainda mais encucado. O que acontece? Por que algumas pessoas tendem a sempre saírem magoadas das relações? Eu não sei. E não quero me apropriar das situações alheias pra tentar explicar algo que acontece dentro e fora de mim...
São momentos de tensão, desentendimento, conflitos interpessoais que me fazem passar por um desconforto não só intelectual, racional, objetivo como eu vejo em muitas pessoas. Eu sinto um intenso desconforto emocional, que se eu não expresso no ato, eu expresso na solidão do meu quarto e, algumas vezes, na representação discursiva aqui no face, porque eu levo isso daqui (muito) a sério. Considero que também faz parte da minha vida e não algo acessório completamente diferente da realidade que se manifesta fora deste meio. (Pra mim) não existe uma barreira muito precisa separando essas duas realidades. Por isso, talvez, boa parte dessas situações que me magoam são provenientes daqui. Das minhas relações "virtuais", se é que pode se dizer assim, visto que do outro lado existe um ser humano tão "real" quanto eu. Esteja ela assumindo uma personalidade e/ou identidade que é própria dela, ou não. No final das contas, nossas expressões são (quase) sempre representações não-nossas, mas adquiridas socialmente, a partir do momento que me aproprio de um sistema linguístico que não é meu e aprendo a pensar a partir dele, inserido no contexto em que ele é veiculado, mas isso é papo pra outra hora, que nada tem a ver com o que eu quero aqui discursar.
A questão é que sentir é tudo o que me é ser. Eu não sei ser sem sentir. Sem sentir amplamente, grandemente, a ponto de sempre estar disposto a arriscar, se o valor simbólico de determinada situação me parecer merecedora de um nível alto do meu esforço. Uma expectativa que, as vezes, me deixa muito avançado em relação meu interlocutor em relação aquele determinado momento, e daí sai todo um roteiro dramático no qual eu rotineiramente me encontro. Por mais que o tempo passe, por mais que eu tente, por mais consciente eu esteja disso tudo, eu não consigo mudar, não consigo prezar a racionalização extrema em detrimento daquilo que eu sinto. E é o que, de certa forma, me ajuda a lidar com o mundo, nos momentos em que estou inspirado, ou naqueles em que a vida se mostra menos amarga, por coisas boas cotidianas que acontecem e que, logo em seguida, talvez me sejam motivos de extrema melancolia. 
Eu entendo o porquê tantas pessoas depositam suas expectativas em objetos materiais. Assim não dependem de lidar com outras pessoas para sentirem, seja o que for. Por isso, em vários momentos, eu amo ficar sozinho. Algo que acabo levando dentro de mim meio a uma multidão. Rodeado de pessoas, prefiro me sentir sozinho, do que ter lidar com pessoas. O que, por sua vez, me deprime de tão miserável é aquela situação. 
Eu não quero ter que guardar sentimentos pra mim, os bons e ruins, para passar a imagem de equilíbrio que todo mundo quer vender e comprar. A qual comprei inúmeras vezes, e paguei com o alto preço de viver em constante depressão (clinicamente diagnosticada) silenciosa, escondida, maquiada... apesar de que, expressar nem sempre é garantia.
Talvez eu e todos aqueles que me são iguais, semelhantes e parecidos sejamos mesmo os tortos da coisa. Talvez essa busca constante por um eu, por uma identidade, por um lugar no mundo, por compreensão, por afeto e carinho, por uma realidade melhor, pela felicidade, pelo prazer, pelo bem-estar seja o problema. Talvez eu deva aprender a valorizar o eu no aqui e no agora mesmo que o aqui e o agora seja o pior momento. Um momento de incertezas e fragmentações. De vazio existencial. De falta de sentido. Talvez tenhamos que transportar a expectativa do amanhã para o hoje, mesmo que isso represente uma frustração pela condição material de impossibilidade. Talvez o amor-próprio seja a resposta para todas as perguntas, mesmo que você esteja aprendendo a se amar e veja que nem assim as coisas são mais coloridas quanto pintam os livros de autoajuda, os conselhos amigos, as filosofias de vida e de relacionamentos que muitas vezes se preocupam consigo apenas, e se esquecem do outro, seguindo assim uma suposta liberdade. Ou talvez seja tudo mesmo uma merda e por isso temos que aproveitar essa vida pra fazer coisas boas para os outros, pois isso uma hora irá nos ajudar. Talvez seja melhor tomar um remédio e praticar essas lobotomias químicas que a galera da modernidade adora. Talvez façamos tudo isso e continuemos na mesma. Talvez. Tal vez. Era uma vez.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O desassossego do corpo

Este corpo que é meu, mas que a sociedade formatara e o estado constantemente reivindica.
Arquivo pessoal
Este corpo que é meu modelado pelas mãos da família e da igreja, à imagem e semelhança da ideia de que meu pau as regras dita.
Esse corpo que é meu de pele branca, cor de colonizador, que foi, também, colonizado pelo gênero que eu não sou.
Este corpo que é meu, marca de violências vividas, sentidas, desaguadas, amarguradas, amalgamadas no que eu sou.
Corpo que hoje excreta em luta aquilo que me foi proibido ao nascer, ao ser, ao existir.
Este corpo que é meu se alimenta da ferida aberta, do sangue que jorrou, dos soluços internos causados por risos, daqueles apelidos, daquela mão me arrastara pela rua.
Este corpo que é meu será meu. Custe a sacola de mercado cheia de lixo que me será atacada, custe os olhares de espantos, custe a saliva engolida pelo desconcerto que causará. Custe o meu constrangimento, ou a sua revolta. Custe os deboches universitários. Custe o preconceito que, em vida, não verei sanado.
Este corpo que é meu só será compartilhado com quem o respeitar.
Este corpo é campo de batalha, e a ninguém servirá.
Este corpo é meu.
E será, de agora em diante, finalmente, eu.

sábado, 25 de abril de 2015

I wish you were here

Estar sozinho é experimentar a si mesmo e, em boa parte das vezes, sem a máscara social de uma felicidade que nos obriga a fecharmos os olhos pra realidade que nos circunda. Estou feliz quando estou sozinho. O problema é estar sozinho cercado de gente. Com a virtualidade das relações, estamos sempre cercados pela impossibilidade de não podermos extinguir a solidão imediata. Aquela que se sana apenas com a presença. Mas quem não leva a sério o não estar presente, que é estar distante e mesmo assim conseguir abraçar, fragiliza a experiencia sensorial. Subalterniza aquilo que o outro sente segurando a bandeira da liberdade. Egoísmo de não querer lidar com o sentimento alheio se já não mais se mostra necessário para afagar as necessidades imediatas.
Imediatismos por Imediatismos, prefiro que se assuma a indiferença latente por baixo dessa máscara disforme da liberdade.

domingo, 12 de abril de 2015

Inquietações sobre o existir no "mundo virtual"

Estou eu aqui às 6h de uma manhã de domingo, o dia mais tedioso da semana, a me deparar com inquietações que me atravessam o "espírito" já há algum tempo...
Meio aos encontros e desencontros, afetos e desafetos de uma semana odiosa, pós-páscoa, eu venho revelar alguns questionamentos sobre essa vida virtual que levamos, e até que ponto ela se distancia dessa narrativa social que chamamos de vida real. Visto que vivemos meio a um emaranhado de convenções sociais, o que vai da nossa língua até a forma como andamos na rua, porque a construção do eu virtual não é também concebida como mais uma face do que somos? Quero dizer, os recortes da nossa vivência ou as estórias que criamos para publicar ao mundo ou para revelar numa conversa privada do chat, o que elas têm que não a construção daquilo que somos? Pois o querer ser, também faz parte daquilo que eu sou. Ou do que ainda não sou. Isso faz-me lembrar dos não-ditos contidos nos discursos que ganham forma e sentido quando proferidos e veiculados no meio social. O quanto desses não-ditos, na verdade, dizem sobre nós, sobre o que pensamos, sobre o que gostaríamos de ser. Não-dizer, ainda que isso signifique o silêncio, significa também, pois acaba que nossas construções são reflexivas. O que eu disse e afirmei é tudo aquilo o que eu não disse e não afirmei. O que se assemelha com a lógica que diz que nos construímos, ou temos uma percepção do que somos, a partir do olhar para o outro e do outro. A velha máxima que diz: sou tudo aquilo que o outro não é. Ou seja, não somos apenas aquilo que pensamos ser. Somos aquilo que resulta de uma série de olhares que os outros têm sobre nós, inclusive aquele olhar do eu que se distancia de mim para me analisar na subjetividade, que mantem ali um compartilhamento de convenções que se tornam intersubjetivas, se pararmos pra pensar. No final, sempre teremos internamente um certo olhar do outro sobre o
que somos. Nós somos os outros? Até certo ponto, diria eu. Apesar de compartilharmos significados, nossas experiências únicas sempre acabam adaptando tais significados para uma vivência que não é a do outro. Em outras palavras, não existe essa coisa de singularidade extrema. Ninguém é estritamente único e exclusivo, mas também o é. Entendem?


No final das contas eu só queria saber se o que se vive nesse mundo virtual é ou não é real. Essas narrativas construídas no mundo virtual são menos eu por que não comporta minha presença física, ainda que tudo isso tenha se tornado já uma realidade tão objetiva quanto a que vivemos no dia-a-dia?
É importante ressaltar que nesses questionamentos não se enquadram as ficções conscientes, nas quais as pessoas intencionalmente “criam” outras personalidades completamente diferentes da sua com o intuito de ter experiências que, talvez, sua realidade objetiva não proporcionaria. Os famosos “fakes”. Aliás, este é, também, um caso interessante para se analisar depois, pois se houver um envolvimento pleno com aquela ficção, talvez haja, em algum nível, a objetivação daquela realidade; e a partir daí, como se desvencilhar propriamente dela? A literatura está aí para nos mostrar que, em alguns casos, isso é impossível; nos quais a própria vida acaba por se tornar uma cópia da arte.
Nem sei se o que escrevi faz sentido, mas fica aqui registrada algumas inquietações que, embora possam não ter sentido algum, são provenientes de toda essa realidade cheia de significações e verdades universais propagadas pelas ciências positivistas.
Mas para já, gostaria de terminar só com mais essas provocações: será que desinstalar nossos aplicativos ou fechar nossa conta no facebook e outras redes sociais é o bastante para acabar com essa realidade aqui objetivada, ou ela viverá para sempre como uma potência que a qualquer momento pode ser objetivada com a mão na caneta em nossos cadernos e diários? Claro que as ferramentas que aqui se encontram nos proporcionam ir muito mais além do papel e caneta, entretanto, é de se pensar que talvez objetivar essa realidade fora do "mundo virtual", ou como queiram chamá-lo, pois não considero que "aqui dentro" seja algo alheio ao "daqui de fora", seja algo, ainda, não possível. Acontece que muitas vezes a presença física impossibilita a materialização do eu que aqui vos está presente discursivamente, e isso implica a presença de regras e leis mais rígidas, imposições que implicam a propensão maior a um punimento psicológico e físico. E aí? O "mundo virtual" não é "real" ou nos possibilita irmos além do que somos "daqui de fora"? O nosso eu aqui, no "virtual", não é "real" porque vamos além do que, no "mundo físico ou real", podemos ou sentimos possibilidade de ir?

Bom começo de semana à todas e todos.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Instantes de cabeceira

As noites vão aos poucos transformando-se no momento em que alcanço a margem. A tênue linha entre mim, o meu eu e os sonhos em que me apoio e construo. Por instantes, numa lucidez mergulhada em angústia, encontro-me feliz. Uma realização pessoal flácida, inconsistente e, talvez, para sempre imaterial. Uma vida ainda não vivida que me passa aos olhos como as nuvens me afastam de uma realidade para além de mim. Para além do que eu sou agora, neste exato e preciso instante. Já não sou há um conjunto de instantes, enquanto me (re)pensava. Instantes que transcendem o que sou, o que quero e para onde a vida me guiara até aqui. Permaneço calado. Ainda adormecido, espero pelo rompimento entre onírico - o realidade calada -, e o real - o onírico inventado. Limbo. Permaneço transitando entre o eu, o desejo e as incertezas, prometendo-me atravessar a margem sem nem pensar em não olhar pra trás. Não me vendo às ilusões, doo-me por inteiro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Adeus, amor

A minha partida sempre será vista como um ato de egoísmo. Quanto mais longe chego, mais escura a realidade me parece. Essa leve imersão na escuridão do meu peito, no apodrecer de minhas forças, na vicissitude da minha alma que não pode se abastecer do ópio que a faz mover-se pela vida... são paradas ao longo da estrada. Momentos em que respirar é pensar. A vida é pobre a quem foi ensinado a pensar e amar. Não me explicarei. Escute o eco vindo de si; a reverberação de versos já conhecidos. Amar é sofrer, pensar é não estar contente e satisfeito com o que me está diante dos olhos, dos sentidos que nos guiam a falta de... a lugar algum. De algum lugar. Dali encontrei-me em outrem, que, hoje, de mim só nos resta a coexistência. Ai, que daquele instante (não) suporto todo o peso. Estou condenado a carrega-lo mesmo depois de partir. Que seja a beira-mar onde o peso das lembranças garanta-me um adeus e que de súbito me faça sorrir antes do meu eu insistir em ser o próprio mar através de um último olhar vazio ao tempo que ceifará minha dor. Assim entre o amor e eu existirá, apenas, história. A dor se irá em busca de um novo hospedeiro tão eu quanto me fui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

defeito de fábrica

a fúria pode ser um sentimento libertador quando acompanhado do grito. aquele único momento onde toda raiva é expurgada de dentro de si com a vibração das ondas sonoras. de repente são suas entranhas escorrendo pela boca, aquele fel... grito de fúria é defeito. urro a minha dor pela janela dos dedos  encharcadas pelas ondas dessa maré alta. essa morada encheu e transborda de água em roupa suja. grito porque sou defeituoso, sou humano. sendo assim, me mantenho berrando. brado de ódio em cada pulsação, enquanto meu fôlego aguenta a tormenta que me tornei. sou de longe um livre insano; de perto, um reles refém. chicotes dilaceram o peito; o líquido vermelho, que de sangue tem apenas o nome e o ser, é aquilo que impregnou-se naturalmente, feito chorume em lixão, onde o brinquedo que já era torto, se quebrou... jogado ao chão, olhar vago dilatado e corpo em contração aparentemente em vão, de tão vazia que é aquela existência. aos poucos surge mergulhado ao suco gástrico as sobras do prato principal, sofrimento e a solidão. gritei porque nada podia fazer. defeito. da fábrica ao uso, do uso ao descarte consciente do lixo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pelas mãos de deus

Numa busca constante por mim frente à natureza, da qual puxei o leve traço disforme, embalo-me numa complexa coreografia de movimentos desalinhados à harmonia devastadora que rege momentos de alienação. Desconstruo com o erro as leis universais desta solenidade psíquica, que só tem início ao entardecer das minhas estórias pessoais e que ainda não são íntimas até que acabem subitamente pelo meio do caminho.
O momento é de poucas palavras - quase nenhuma - e a orquestra enche de vida uma nociva existência que se coloca a beira de seu próprio precipício por pura iconoclastia. 
A busca, para além de conhecer, é armadilha. Destruir. 
Matar a si para matar a deus, pelas mãos do próprio sagrado; à sua imagem e semelhança. Destruir-se é lei universal íntima para que escrever seja possível e o caos interno seja expurgado. Destruir-se é autoconhecer-se

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Rascunho: 1ª parte

um ser arrastado para a vida como uma obrigação. uma existência forçada e submetida aos caprichos de uma raça que se julga no topo de uma suposta pirâmide das espécies. e a perpetuação da espécie já não é uma resposta equivalente à lógica. uns nascem de um destino meticulosamente planejado, outros do mero e infortúnio acaso. mas esta pessoa da qual pretendo falar... ela nasceu fruto de uma sutil violência; dessa forçosa narrativa que cria fábulas que falam sobre cegonhas que trazem bebês, e assim esconder, talvez, parte daquilo que somos.
foram longos momentos de uma dor submetida às ordens obstétricas. o ser que já existia, antes mesmo de sua concepção e idealização, é então trazido a força ao mundo. mais um amontoado de células, em pleno funcionamento, configurado pela natureza. lido e significado por ideias e valores que tornam a vida cada vez mais desesperadora e medíocre, desde então lhe é previamente atribuída todas as obrigações de uma vida baseada num órgão genital. a existência, já nos primeiros anos de vida, precisa de força para ser suportada.

Créditos finais

Sentado à beira-mar, como uma estrela refletida sobre a superfície das águas, um pontinho perdido no manto celeste de uma ilusão friamente explicada pela ciência dos homens, estou eu a observar o tempo. A presenciar o pôr-de-mais-um-dia, que diferentemente das primeiras horas de claridade que nos atormenta a alma com a esperança, com a incerteza sobre como suportar a existência, o crepúsculo remete-me a conformidade diante do passado, ainda que sejam horas ou minutos atrás. Aconteceu e o dia não voltará atrás para nos ensinar a suportar a vida ao seguir do instante em que respiramos todo o ar que podemos suplicando por um minuto de paz.
A tormenta que se aproxima do meu céu é a mesma que desassossega o mar onde as estrelas refletirão, e eu, como uma, vinda do mar, transbordo de água salgada pelo olhar, a confundir-me com as pequenas ondas que estão a se formar. Já não observo o crepúsculo, sou ele próprio.