domingo, 25 de setembro de 2016

Autorretrato

Sumi mais uma vez, e cá estou com algumas inferências discursivas na mesma tentativa de compreender o que e quem sou. Acredito que estou chegando cada vez mais perto. Primeiro porque decidi não consultar mais memórias fabricadas. Dessa vez tenho tentado olhar para o passado como parte constitutiva de quem me tornei e não daquilo que gostaria de ter me tornado. Tem sido difícil aceitar algumas coisas, como, por exemplo, que estive em negação em relação a morte da minha mãe e como isso me afetou. Ou então, apesar de ter meu pai como meu herói, como nossa relação tem sido um tanto quanto destrutiva em certo ponto. Essa força controladora que paira sobre mim nada mais é do que a voz patriarcal de um silêncio que se impõe; afinal, mal conversamos nossa vida toda. Mesmo assim sinto que tanto já fora dito. É assustador como o silêncio reverbera de uma forma igualmente repressiva.
Aquela psicóloga estava certa. Precisamos nos perder, precisamos nos permitir estar perdidos para que possamos nos encontrar. Aceitar nossa fragilidade e limitação. Compreender que precisamos daquele cuidado de si que negligenciamos durante toda uma vida de fuga e de negação de sofrimentos profundos que até então não sabíamos que existia. Aquela raiva contida do passado, essa imagem de bom moço e sorrisinho forçado que ainda persistem são sequelas. Esse teatro de melhor aluno, melhor amigo, namorado, ou melhor qualquer coisa precisa acabar. Infelizmente ela tem se manifestado através do medo de viver e esbarrar na destruição de expectativas alheias criadas todas em cima de uma pessoa que nunca existiu.
Eu nunca existi de verdade. Minto. Minhas explosões eram extremamente genuínas. Minha antipatia por alguém baseada em - veja só! - preconceitos. O desleixo e  a preguiça também foram expressões daquilo que vinha me tornando. Só reconheço, de fato, isso hoje. Ainda assim, alimentei esse modo de ser narcísico que se admira e exalta a própria imagem, ainda que essa imagem não seja um reflexo verossímil daquilo que se é de verdade, por muito tempo iludiu. Por muito tempo imaginei ser alguém muito melhor do que era. E a sorte, infelizmente, contribuiu para que assim eu continuasse achando. Uma faculdade, um intercâmbio, boas notas - e reconheço que elas só existiram através de grandes amizades, vamos combinar... Eu sozinho fui e ainda sou um fracasso, um nada. No final das contas, embora narciso eu fosse, aquele resquício de consciência que mais parecia a serpente que levara Eva a cometer o primeiro pecado ainda me sussurrava o extremo oposto do que tentava externar em discurso. Horrendo e medíocre. Assim foram construídas as bases desse manicômio interno.
Essa polarização não existe, é claro. Sei bem disso. É ai que as narrativas únicas nos levam. Confusões, conflitos... Como podemos ser bons e maus ao mesmo tempo, não é mesmo?
Mas ser humano é isso mesmo. E é isso que preciso apreender. E é com isso que preciso trabalhar para aceitar a realidade tal e qual ela é e ajudar a transformá-la de acordo com um senso ético e moral para além do status quo que me moldara nessa bagunça emocional que hoje sou.
Ainda me vejo tomado pela inércia que continua a alimentar medos e inseguranças na vida prática. Mas sinto que aos poucos estou mudando e me fortalecendo. Só não sei quando me sentirei apto a levantar e andar.

Tic... tac... tic... tac... tic... tac...

Refletir parece ser o princípio da existência humana.


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