quarta-feira, 11 de março de 2015

Instantes de cabeceira

As noites vão aos poucos transformando-se no momento em que alcanço a margem. A tênue linha entre mim, o meu eu e os sonhos em que me apoio e construo. Por instantes, numa lucidez mergulhada em angústia, encontro-me feliz. Uma realização pessoal flácida, inconsistente e, talvez, para sempre imaterial. Uma vida ainda não vivida que me passa aos olhos como as nuvens me afastam de uma realidade para além de mim. Para além do que eu sou agora, neste exato e preciso instante. Já não sou há um conjunto de instantes, enquanto me (re)pensava. Instantes que transcendem o que sou, o que quero e para onde a vida me guiara até aqui. Permaneço calado. Ainda adormecido, espero pelo rompimento entre onírico - o realidade calada -, e o real - o onírico inventado. Limbo. Permaneço transitando entre o eu, o desejo e as incertezas, prometendo-me atravessar a margem sem nem pensar em não olhar pra trás. Não me vendo às ilusões, doo-me por inteiro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Adeus, amor

A minha partida sempre será vista como um ato de egoísmo. Quanto mais longe chego, mais escura a realidade me parece. Essa leve imersão na escuridão do meu peito, no apodrecer de minhas forças, na vicissitude da minha alma que não pode se abastecer do ópio que a faz mover-se pela vida... são paradas ao longo da estrada. Momentos em que respirar é pensar. A vida é pobre a quem foi ensinado a pensar e amar. Não me explicarei. Escute o eco vindo de si; a reverberação de versos já conhecidos. Amar é sofrer, pensar é não estar contente e satisfeito com o que me está diante dos olhos, dos sentidos que nos guiam a falta de... a lugar algum. De algum lugar. Dali encontrei-me em outrem, que, hoje, de mim só nos resta a coexistência. Ai, que daquele instante (não) suporto todo o peso. Estou condenado a carrega-lo mesmo depois de partir. Que seja a beira-mar onde o peso das lembranças garanta-me um adeus e que de súbito me faça sorrir antes do meu eu insistir em ser o próprio mar através de um último olhar vazio ao tempo que ceifará minha dor. Assim entre o amor e eu existirá, apenas, história. A dor se irá em busca de um novo hospedeiro tão eu quanto me fui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

defeito de fábrica

a fúria pode ser um sentimento libertador quando acompanhado do grito. aquele único momento onde toda raiva é expurgada de dentro de si com a vibração das ondas sonoras. de repente são suas entranhas escorrendo pela boca, aquele fel... grito de fúria é defeito. urro a minha dor pela janela dos dedos  encharcadas pelas ondas dessa maré alta. essa morada encheu e transborda de água em roupa suja. grito porque sou defeituoso, sou humano. sendo assim, me mantenho berrando. brado de ódio em cada pulsação, enquanto meu fôlego aguenta a tormenta que me tornei. sou de longe um livre insano; de perto, um reles refém. chicotes dilaceram o peito; o líquido vermelho, que de sangue tem apenas o nome e o ser, é aquilo que impregnou-se naturalmente, feito chorume em lixão, onde o brinquedo que já era torto, se quebrou... jogado ao chão, olhar vago dilatado e corpo em contração aparentemente em vão, de tão vazia que é aquela existência. aos poucos surge mergulhado ao suco gástrico as sobras do prato principal, sofrimento e a solidão. gritei porque nada podia fazer. defeito. da fábrica ao uso, do uso ao descarte consciente do lixo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pelas mãos de deus

Numa busca constante por mim frente à natureza, da qual puxei o leve traço disforme, embalo-me numa complexa coreografia de movimentos desalinhados à harmonia devastadora que rege momentos de alienação. Desconstruo com o erro as leis universais desta solenidade psíquica, que só tem início ao entardecer das minhas estórias pessoais e que ainda não são íntimas até que acabem subitamente pelo meio do caminho.
O momento é de poucas palavras - quase nenhuma - e a orquestra enche de vida uma nociva existência que se coloca a beira de seu próprio precipício por pura iconoclastia. 
A busca, para além de conhecer, é armadilha. Destruir. 
Matar a si para matar a deus, pelas mãos do próprio sagrado; à sua imagem e semelhança. Destruir-se é lei universal íntima para que escrever seja possível e o caos interno seja expurgado. Destruir-se é autoconhecer-se

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Rascunho: 1ª parte

um ser arrastado para a vida como uma obrigação. uma existência forçada e submetida aos caprichos de uma raça que se julga no topo de uma suposta pirâmide das espécies. e a perpetuação da espécie já não é uma resposta equivalente à lógica. uns nascem de um destino meticulosamente planejado, outros do mero e infortúnio acaso. mas esta pessoa da qual pretendo falar... ela nasceu fruto de uma sutil violência; dessa forçosa narrativa que cria fábulas que falam sobre cegonhas que trazem bebês, e assim esconder, talvez, parte daquilo que somos.
foram longos momentos de uma dor submetida às ordens obstétricas. o ser que já existia, antes mesmo de sua concepção e idealização, é então trazido a força ao mundo. mais um amontoado de células, em pleno funcionamento, configurado pela natureza. lido e significado por ideias e valores que tornam a vida cada vez mais desesperadora e medíocre, desde então lhe é previamente atribuída todas as obrigações de uma vida baseada num órgão genital. a existência, já nos primeiros anos de vida, precisa de força para ser suportada.

Créditos finais

Sentado à beira-mar, como uma estrela refletida sobre a superfície das águas, um pontinho perdido no manto celeste de uma ilusão friamente explicada pela ciência dos homens, estou eu a observar o tempo. A presenciar o pôr-de-mais-um-dia, que diferentemente das primeiras horas de claridade que nos atormenta a alma com a esperança, com a incerteza sobre como suportar a existência, o crepúsculo remete-me a conformidade diante do passado, ainda que sejam horas ou minutos atrás. Aconteceu e o dia não voltará atrás para nos ensinar a suportar a vida ao seguir do instante em que respiramos todo o ar que podemos suplicando por um minuto de paz.
A tormenta que se aproxima do meu céu é a mesma que desassossega o mar onde as estrelas refletirão, e eu, como uma, vinda do mar, transbordo de água salgada pelo olhar, a confundir-me com as pequenas ondas que estão a se formar. Já não observo o crepúsculo, sou ele próprio.