segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Adeus, amor

A minha partida sempre será vista como um ato de egoísmo. Quanto mais longe chego, mais escura a realidade me parece. Essa leve imersão na escuridão do meu peito, no apodrecer de minhas forças, na vicissitude da minha alma que não pode se abastecer do ópio que a faz mover-se pela vida... são paradas ao longo da estrada. Momentos em que respirar é pensar. A vida é pobre a quem foi ensinado a pensar e amar. Não me explicarei. Escute o eco vindo de si; a reverberação de versos já conhecidos. Amar é sofrer, pensar é não estar contente e satisfeito com o que me está diante dos olhos, dos sentidos que nos guiam a falta de... a lugar algum. De algum lugar. Dali encontrei-me em outrem, que, hoje, de mim só nos resta a coexistência. Ai, que daquele instante (não) suporto todo o peso. Estou condenado a carrega-lo mesmo depois de partir. Que seja a beira-mar onde o peso das lembranças garanta-me um adeus e que de súbito me faça sorrir antes do meu eu insistir em ser o próprio mar através de um último olhar vazio ao tempo que ceifará minha dor. Assim entre o amor e eu existirá, apenas, história. A dor se irá em busca de um novo hospedeiro tão eu quanto me fui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

defeito de fábrica

a fúria pode ser um sentimento libertador quando acompanhado do grito. aquele único momento onde toda raiva é expurgada de dentro de si com a vibração das ondas sonoras. de repente são suas entranhas escorrendo pela boca, aquele fel... grito de fúria é defeito. urro a minha dor pela janela dos dedos  encharcadas pelas ondas dessa maré alta. essa morada encheu e transborda de água em roupa suja. grito porque sou defeituoso, sou humano. sendo assim, me mantenho berrando. brado de ódio em cada pulsação, enquanto meu fôlego aguenta a tormenta que me tornei. sou de longe um livre insano; de perto, um reles refém. chicotes dilaceram o peito; o líquido vermelho, que de sangue tem apenas o nome e o ser, é aquilo que impregnou-se naturalmente, feito chorume em lixão, onde o brinquedo que já era torto, se quebrou... jogado ao chão, olhar vago dilatado e corpo em contração aparentemente em vão, de tão vazia que é aquela existência. aos poucos surge mergulhado ao suco gástrico as sobras do prato principal, sofrimento e a solidão. gritei porque nada podia fazer. defeito. da fábrica ao uso, do uso ao descarte consciente do lixo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pelas mãos de deus

Numa busca constante por mim frente à natureza, da qual puxei o leve traço disforme, embalo-me numa complexa coreografia de movimentos desalinhados à harmonia devastadora que rege momentos de alienação. Desconstruo com o erro as leis universais desta solenidade psíquica, que só tem início ao entardecer das minhas estórias pessoais e que ainda não são íntimas até que acabem subitamente pelo meio do caminho.
O momento é de poucas palavras - quase nenhuma - e a orquestra enche de vida uma nociva existência que se coloca a beira de seu próprio precipício por pura iconoclastia. 
A busca, para além de conhecer, é armadilha. Destruir. 
Matar a si para matar a deus, pelas mãos do próprio sagrado; à sua imagem e semelhança. Destruir-se é lei universal íntima para que escrever seja possível e o caos interno seja expurgado. Destruir-se é autoconhecer-se

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Rascunho: 1ª parte

um ser arrastado para a vida como uma obrigação. uma existência forçada e submetida aos caprichos de uma raça que se julga no topo de uma suposta pirâmide das espécies. e a perpetuação da espécie já não é uma resposta equivalente à lógica. uns nascem de um destino meticulosamente planejado, outros do mero e infortúnio acaso. mas esta pessoa da qual pretendo falar... ela nasceu fruto de uma sutil violência; dessa forçosa narrativa que cria fábulas que falam sobre cegonhas que trazem bebês, e assim esconder, talvez, parte daquilo que somos.
foram longos momentos de uma dor submetida às ordens obstétricas. o ser que já existia, antes mesmo de sua concepção e idealização, é então trazido a força ao mundo. mais um amontoado de células, em pleno funcionamento, configurado pela natureza. lido e significado por ideias e valores que tornam a vida cada vez mais desesperadora e medíocre, desde então lhe é previamente atribuída todas as obrigações de uma vida baseada num órgão genital. a existência, já nos primeiros anos de vida, precisa de força para ser suportada.

Créditos finais

Sentado à beira-mar, como uma estrela refletida sobre a superfície das águas, um pontinho perdido no manto celeste de uma ilusão friamente explicada pela ciência dos homens, estou eu a observar o tempo. A presenciar o pôr-de-mais-um-dia, que diferentemente das primeiras horas de claridade que nos atormenta a alma com a esperança, com a incerteza sobre como suportar a existência, o crepúsculo remete-me a conformidade diante do passado, ainda que sejam horas ou minutos atrás. Aconteceu e o dia não voltará atrás para nos ensinar a suportar a vida ao seguir do instante em que respiramos todo o ar que podemos suplicando por um minuto de paz.
A tormenta que se aproxima do meu céu é a mesma que desassossega o mar onde as estrelas refletirão, e eu, como uma, vinda do mar, transbordo de água salgada pelo olhar, a confundir-me com as pequenas ondas que estão a se formar. Já não observo o crepúsculo, sou ele próprio.