Estou eu aqui às 6h de uma manhã de domingo, o dia mais tedioso da semana, a me deparar com inquietações que me atravessam o "espírito" já há algum tempo...
Meio aos encontros e desencontros, afetos e desafetos de uma semana odiosa, pós-páscoa, eu venho revelar alguns questionamentos sobre essa vida virtual que levamos, e até que ponto ela se distancia dessa narrativa social que chamamos de vida real. Visto que vivemos meio a um emaranhado de convenções sociais, o que vai da nossa língua até a forma como andamos na rua, porque a construção do eu virtual não é também concebida como mais uma face do que somos? Quero dizer, os recortes da nossa vivência ou as estórias que criamos para publicar ao mundo ou para revelar numa conversa privada do chat, o que elas têm que não a construção daquilo que somos? Pois o querer ser, também faz parte daquilo que eu sou. Ou do que ainda não sou. Isso faz-me lembrar dos não-ditos contidos nos discursos que ganham forma e sentido quando proferidos e veiculados no meio social. O quanto desses não-ditos, na verdade, dizem sobre nós, sobre o que pensamos, sobre o que gostaríamos de ser. Não-dizer, ainda que isso signifique o silêncio, significa também, pois acaba que nossas construções são reflexivas. O que eu disse e afirmei é tudo aquilo o que eu não disse e não afirmei. O que se assemelha com a lógica que diz que nos construímos, ou temos uma percepção do que somos, a partir do olhar para o outro e do outro. A velha máxima que diz: sou tudo aquilo que o outro não é. Ou seja, não somos apenas aquilo que pensamos ser. Somos aquilo que resulta de uma série de olhares que os outros têm sobre nós, inclusive aquele olhar do eu que se distancia de mim para me analisar na subjetividade, que mantem ali um compartilhamento de convenções que se tornam intersubjetivas, se pararmos pra pensar. No final, sempre teremos internamente um certo olhar do outro sobre o
que somos. Nós somos os outros? Até certo ponto, diria eu. Apesar de compartilharmos significados, nossas experiências únicas sempre acabam adaptando tais significados para uma vivência que não é a do outro. Em outras palavras, não existe essa coisa de singularidade extrema. Ninguém é estritamente único e exclusivo, mas também o é. Entendem?
No final das contas eu só queria saber se o que se vive nesse mundo virtual é ou não é real. Essas narrativas construídas no mundo virtual são menos eu por que não comporta minha presença física, ainda que tudo isso tenha se tornado já uma realidade tão objetiva quanto a que vivemos no dia-a-dia?
É importante ressaltar que nesses questionamentos não se enquadram as ficções conscientes, nas quais as pessoas intencionalmente “criam” outras personalidades completamente diferentes da sua com o intuito de ter experiências que, talvez, sua realidade objetiva não proporcionaria. Os famosos “fakes”. Aliás, este é, também, um caso interessante para se analisar depois, pois se houver um envolvimento pleno com aquela ficção, talvez haja, em algum nível, a objetivação daquela realidade; e a partir daí, como se desvencilhar propriamente dela? A literatura está aí para nos mostrar que, em alguns casos, isso é impossível; nos quais a própria vida acaba por se tornar uma cópia da arte.
Nem sei se o que escrevi faz sentido, mas fica aqui registrada algumas inquietações que, embora possam não ter sentido algum, são provenientes de toda essa realidade cheia de significações e verdades universais propagadas pelas ciências positivistas.

Mas para já, gostaria de terminar só com mais essas provocações: será que desinstalar nossos aplicativos ou fechar nossa conta no facebook e outras redes sociais é o bastante para acabar com essa realidade aqui objetivada, ou ela viverá para sempre como uma potência que a qualquer momento pode ser objetivada com a mão na caneta em nossos cadernos e diários? Claro que as ferramentas que aqui se encontram nos proporcionam ir muito mais além do papel e caneta, entretanto, é de se pensar que talvez objetivar essa realidade fora do "mundo virtual", ou como queiram chamá-lo, pois não considero que "aqui dentro" seja algo alheio ao "daqui de fora", seja algo, ainda, não possível. Acontece que muitas vezes a presença física impossibilita a materialização do eu que aqui vos está presente discursivamente, e isso implica a presença de regras e leis mais rígidas, imposições que implicam a propensão maior a um punimento psicológico e físico. E aí? O "mundo virtual" não é "real" ou nos possibilita irmos além do que somos "daqui de fora"? O nosso eu aqui, no "virtual", não é "real" porque vamos além do que, no "mundo físico ou real", podemos ou sentimos possibilidade de ir?
Bom começo de semana à todas e todos.