Não sou uma pessoa de certezas e nos últimos anos tenho lutado contra a rigidez do meu próprio julgamento sobre mim. Todo dia uma batalha. Perco em um dia, ganho em outro, e assim vou colocando um pé a frente do outro, equilibrando o movimento da vida.
Todos temos caminhos, muitas vezes árduos, pelos quais seguimos. E ninguém está só nessa jornada, muito embora seja tentador olhar para si mesmo como quem carrega o peso sozinho do mundo nas costas. E é engraçado olhar para tudo isso após um tempo e confrontar a própria insignificância. Perceber a ambivalência e a contradição que vive em mim e em cada um de nós. É um convite para que aceitemos e recebamos o outro real. De carne e osso. Humano. E quase sempre diferente de mim. É claro que há premissas inegociáveis referentes a defesa do justo, da diversidade e da igualdade que me são caras, mas eu jamais espero me relacionar apenas comigo mesmo. Com meu reflexo no espelho, esperando que tudo seja exatamente como eu fantasio ou penso como deveriam ser. Se eu decido me relacionar, eu quero dialogar, aprender, conhecer e mergulhar naquilo que me é diferente e que me hipnotiza e me faz querer me aprofundar. Não só, pois no viver, não sou nenhum antropólogo ou psicólogo, sou gente, embora ainda esteja me acostumando com isso. Mas apostar, escolher, vulnerabilizar-me, e me deixar ser transformado pelo que tanto me fascinou.
Não quero dizer que não vou errar, não vou me contradizer e nem que serei sempre positividade. E nem espero que não me aborreçam, magoem ou decepcionem. Pois o que eu quero é viver, sentir, e abraçar o mistério do amanhã como uma aposta no melhor que posso contribuir na construção de algo pelo qual valha a pena viver e se arriscar. Levo sempre minhas bagagens? Claro. Considero a bagagem do outro? Óbvio! Mas o que eu levo não é o que está a minha frente. Se assemelha? Existem padrões? Pelo que parece, em algum nível, sempre existirá. Mas também não me vista da cabeça aos pés com o que trouxer. Eu não vim do mesmo lugar, não tenho a mesma história e experiências de um outro, portanto não me cabem estas vestes que muitas vezes querem me colocar.
Não sou de certezas, já disse. Sou de sentir, de pensar e de agir. Passos em falso vão ocorrer. Mas as decisões sobre o que quero, posso me demorar, ou adiantar, mas irei tomar. E quando tomo, estou disposto a lidar, preparado ou não para os caminhos, e também perigos, a que podem me levar.
Sempre encaro meus monstros internos em minhas relações. Isso não torna ninguém inerentemente capaz de me amedrontar. Sem garantias de que também seja.
E penso sempre: como ainda buscamos garantias em relações humanas sem vivê-las enquanto se apresentam? O que é necessário para além de todas as condições possíveis para florescer? E claro, a possibilidade de fracassar.
Eu, na minha loucura, costumava fugir do que me era possível e fazia bem e vivia na busca do impossível, talvez por achar que não merecia ser amado como eu queria e ficava provando meu valor, até não dar mais. Ainda hoje o faço, mas dessa vez escolhi e amei o possível. O real. E mesmo assim fracassei. Eu já não era eu, fui transfigurado em um despertador de traumas e inseguranças por minimamente apresentar minha humanidade falha e contraditória e presente em todos. Eu não posso dormir com essa culpa e responsabilidade sobre mim. Eu não posso assumir que tenha tido as piores atitudes, se a dimensão real das minhas ações não tenha fugido do que qualquer ser humano pode fazer. Errar sem querer errar. Assumir. Pedir desculpas e tentar dialogar para então continuar construindo aquilo tudo que estava em construção. Parceria, diálogo, espaço para a escuta, para o erro e para o perdão e pra transformação. Silenciar o ego, ceder quando o outro precisa de mim e eu do outro. Permitir que o tempo de processar os sentimentos seja regra para se ir a um outro estágio de relação. De uma maturidade que não houve em nenhuma das partes. Era puro desejo de crescimento mútuo.
Mas quem sou eu senão um transfigurado em outro que não eu mesmo por uma bagagem que, de longe, não era minha?
Eu não tenho certezas, mas eu sei que amo. E só ele não basta, é verdade. Mas quando amo, é a ele que sirvo, que rego e deposito minha fé de que dele algo lindo, complexo e transformador surgirá. Estou de peito aberto a quem este amor servirá. A quem olhar nos meus olhos presenciando o próprio mar e me dizer que vale a pena me amar.
São Vicente, 13 de março de 2025.