Sumi mais uma vez, e cá estou com algumas inferências discursivas na mesma tentativa de compreender o que e quem sou. Acredito que estou chegando cada vez mais perto. Primeiro porque decidi não consultar mais memórias fabricadas. Dessa vez tenho tentado olhar para o passado como parte constitutiva de quem me tornei e não daquilo que gostaria de ter me tornado. Tem sido difícil aceitar algumas coisas, como, por exemplo, que estive em negação em relação a morte da minha mãe e como isso me afetou. Ou então, apesar de ter meu pai como meu herói, como nossa relação tem sido um tanto quanto destrutiva em certo ponto. Essa força controladora que paira sobre mim nada mais é do que a voz patriarcal de um silêncio que se impõe; afinal, mal conversamos nossa vida toda. Mesmo assim sinto que tanto já fora dito. É assustador como o silêncio reverbera de uma forma igualmente repressiva.
Aquela psicóloga estava certa. Precisamos nos perder, precisamos nos permitir estar perdidos para que possamos nos encontrar. Aceitar nossa fragilidade e limitação. Compreender que precisamos daquele cuidado de si que negligenciamos durante toda uma vida de fuga e de negação de sofrimentos profundos que até então não sabíamos que existia. Aquela raiva contida do passado, essa imagem de bom moço e sorrisinho forçado que ainda persistem são sequelas. Esse teatro de melhor aluno, melhor amigo, namorado, ou melhor qualquer coisa precisa acabar. Infelizmente ela tem se manifestado através do medo de viver e esbarrar na destruição de expectativas alheias criadas todas em cima de uma pessoa que nunca existiu.
Eu nunca existi de verdade. Minto. Minhas explosões eram extremamente genuínas. Minha antipatia por alguém baseada em - veja só! - preconceitos. O desleixo e a preguiça também foram expressões daquilo que vinha me tornando. Só reconheço, de fato, isso hoje. Ainda assim, alimentei esse modo de ser narcísico que se admira e exalta a própria imagem, ainda que essa imagem não seja um reflexo verossímil daquilo que se é de verdade, por muito tempo iludiu. Por muito tempo imaginei ser alguém muito melhor do que era. E a sorte, infelizmente, contribuiu para que assim eu continuasse achando. Uma faculdade, um intercâmbio, boas notas - e reconheço que elas só existiram através de grandes amizades, vamos combinar... Eu sozinho fui e ainda sou um fracasso, um nada. No final das contas, embora narciso eu fosse, aquele resquício de consciência que mais parecia a serpente que levara Eva a cometer o primeiro pecado ainda me sussurrava o extremo oposto do que tentava externar em discurso. Horrendo e medíocre. Assim foram construídas as bases desse manicômio interno.
Essa polarização não existe, é claro. Sei bem disso. É ai que as narrativas únicas nos levam. Confusões, conflitos... Como podemos ser bons e maus ao mesmo tempo, não é mesmo?
Mas ser humano é isso mesmo. E é isso que preciso apreender. E é com isso que preciso trabalhar para aceitar a realidade tal e qual ela é e ajudar a transformá-la de acordo com um senso ético e moral para além do status quo que me moldara nessa bagunça emocional que hoje sou.
Ainda me vejo tomado pela inércia que continua a alimentar medos e inseguranças na vida prática. Mas sinto que aos poucos estou mudando e me fortalecendo. Só não sei quando me sentirei apto a levantar e andar.
Tic... tac... tic... tac... tic... tac...
Refletir parece ser o princípio da existência humana.
domingo, 25 de setembro de 2016
domingo, 14 de agosto de 2016
O maior alívio de uma pessoa em dor, física ou emocional, deve ser os segundos que antecedem seu último fio de consciência. A certeza de que acabou. Para os que tem fé é um mundo que os aguarda para que haja redenções. Para os céticos, talvez um empolgante fim, a certeza de um reaproveitamente de tudo o que se foi de forma prática. Matéria orgânica sendo reaproveitada pela natureza e suas leis. Para outros céticos, ainda a incerteza de, quem sabe, uma próxima desventura. Afinal, desnudar-se de crenças enquanto ato político é mais complexo do que se parece. Uma vez no assentado no subconsciente, quem sabe quando e onde as verdades de outrora não se desenterrarão.
Acho que esse último, acaba por me descrever com honestidade. Mas da janela pra fora, prefiro mentir. Ultimamente tenho deixado a cortina aberta. Descuido intencional pra ver o que acontece. Se alguém pelo olhar me puxa pelo braço. Se alguma voz me indica o caminho que me afaste dos sussurros da morte.
Como estamos todo sozinhos dentro de nós mesmos, nascemos assim e não diferente morreremos, vou percebendo que levantar-se, ainda que diante de mãos estendidas, segurando-te, o principal esforço para manter-se de pé e caminhar é o de dentro. É o de uma subjetividade fortalecendo-se
Campainha tocou. Acabei de ter que justificar pra outrem o luto da família. A morte de uma prima distante. Morava aqui do lado. Significou uma doce amizade de infância. Verônica. Nome forte. Sempre imaginei dar o nome pra minha filha de Maria Verônica. Uma mãe que queria ter uma filha e uma filha que precisava de uma mãe. Ao menos, é assim que ouvi dizerem. E sabe como é, né? Tudo o que ouvimos fica na nossa mente...
...me perdi. Talvez eu volte e continue. Talvez não. Não sei.
Acho que esse último, acaba por me descrever com honestidade. Mas da janela pra fora, prefiro mentir. Ultimamente tenho deixado a cortina aberta. Descuido intencional pra ver o que acontece. Se alguém pelo olhar me puxa pelo braço. Se alguma voz me indica o caminho que me afaste dos sussurros da morte.
Como estamos todo sozinhos dentro de nós mesmos, nascemos assim e não diferente morreremos, vou percebendo que levantar-se, ainda que diante de mãos estendidas, segurando-te, o principal esforço para manter-se de pé e caminhar é o de dentro. É o de uma subjetividade fortalecendo-se
Campainha tocou. Acabei de ter que justificar pra outrem o luto da família. A morte de uma prima distante. Morava aqui do lado. Significou uma doce amizade de infância. Verônica. Nome forte. Sempre imaginei dar o nome pra minha filha de Maria Verônica. Uma mãe que queria ter uma filha e uma filha que precisava de uma mãe. Ao menos, é assim que ouvi dizerem. E sabe como é, né? Tudo o que ouvimos fica na nossa mente...
...me perdi. Talvez eu volte e continue. Talvez não. Não sei.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
domingo, 1 de maio de 2016
O que está acontecendo?
"Permita-se estar perdido.
Permita-se."
Já faz algumas semanas desde que a psicóloga me disse isso. Primeira vez na vida, depois de uma vida sentindo essa necessidade, que fui em uma. Talvez o estado em que eu me encontro seja uma materialização dessa necessidade eminente, mas negligenciada.
Enfim. Estou perdido. Isso é constatação. Fato. Mas o eco de uma voz aparentemente cansada, e com um certo peso, diria eu, ainda soa aqui dentro. Estou a tentar compreender.
Fico me questionando se estou perdido, ou se é defeito. Mau funcionamento. Mau desenvolvimento.
Tenho medo que seja isso. Tenho medo de ter me forçado a um estágio do qual não sou capaz de ultrapassar, tampouco posso regressar.
O tempo é um só. Pelo menos por ora. O agora. E, segundo Nietzsche, é o único que existe de fato. Passado é memória, pois então é presente imaterial. E o futuro, ainda, não se concretizou, por isso não existe. Existem hipóteses, umas mais fortes e concretizáveis que outras, que podem vir a se realizar. Mas pensando bem, nem mesmo o presente existe, visto que não podemos congelar o tempo, os segundos passam, vivemos em instantes dinâmicos, que passam. No momento que se pensa que é, não é mais. Isso é presente? Ou são futuros, microscópicas hipóteses de futuro, se concretizando numa macroestrutura que chamamos de presente? Sei lá. Estou perdido demais para pensar nessas questões com clareza. Se é que alguém pensa nessas coisas com clareza...
Uma das verdades é que estou cansado. Ou sou cansado? Me canso e desisto com frequência. Não sei se quero continuar trilhando um caminho que comecei, se mudo a rota, se estaciono. Estar preso ao presente me incomoda. Nesse estágio não conseguir me projetar no futuro me frustra. Não saber qual será o final, ou os meios em que me encontrarei em vida, não me consola. Eu não sei viver o presente. Eu não consigo viver o presente. Eu não sei lidar com o presente com grandes hipóteses de um futuro medíocre. Pior é não me sentir capaz em habilidades de sair daqui. Desse estado. Minhas faculdades mentais parece que atrofiaram no sentir prazer para acobertar a dor das coisas, pessoas, lugares e momentos que passaram, que deixei e que perdi pelo caminho.
A falta de perspectiva em um dia conseguir estar feliz por longos períodos e pequenos intervalos me impede de ser feliz no agora. Mas como mudar? Como ser feliz no agora se não consigo lidar com ele e com as reverberações de passados não resolvidos?
As condições em que vivo, no contexto sócio-político em que vivo, é que não me permitem estar feliz ou eu não me permito estar feliz? Ou os dois igualmente? Ou mais um do que o outro? Qual é mais e qual é menos? Será que tenho uma resposta sincera pra isso ou me utilizarei de recursos retóricos, tal como os utilizo agora para responder com mais vazios e dúvidas? Não sei.
Eu penso muito nos outros, também. Como estão, o que pensam de mim, o que sentem por mim, como me veem. Apesar de ter me livrado e muito dessa constante preocupação, elas ainda permanecem em um outro nível. Acho que isso me impede de ser ainda mais eu. De me expressar mais como eu gostaria.
Sou infantil ou me infantilizei ou fui infantilizado. Ao menos, assim eu me sinto. Maturidade seria bem vinda agora. Pra isso preciso me reprogramar. Mas como? Já passei por coisas, muitas coisas, mas parece que amadurecer é difícil. Não é só vivenciar. É força de vontade, esforço, disposição, reprodução, teatro, arte, música, poesia, literatura, teoria, foco, força, sem fé. Fé é infantilidade humana. Acho que pode ser isso também. Ainda paira sobre mim resquícios de fé, ou de medo da não fé. Ou os dois. Sei lá.
Estou perdido, cansado e com sono.
Permita-se."
Já faz algumas semanas desde que a psicóloga me disse isso. Primeira vez na vida, depois de uma vida sentindo essa necessidade, que fui em uma. Talvez o estado em que eu me encontro seja uma materialização dessa necessidade eminente, mas negligenciada.
Enfim. Estou perdido. Isso é constatação. Fato. Mas o eco de uma voz aparentemente cansada, e com um certo peso, diria eu, ainda soa aqui dentro. Estou a tentar compreender.
Fico me questionando se estou perdido, ou se é defeito. Mau funcionamento. Mau desenvolvimento.
Tenho medo que seja isso. Tenho medo de ter me forçado a um estágio do qual não sou capaz de ultrapassar, tampouco posso regressar.
O tempo é um só. Pelo menos por ora. O agora. E, segundo Nietzsche, é o único que existe de fato. Passado é memória, pois então é presente imaterial. E o futuro, ainda, não se concretizou, por isso não existe. Existem hipóteses, umas mais fortes e concretizáveis que outras, que podem vir a se realizar. Mas pensando bem, nem mesmo o presente existe, visto que não podemos congelar o tempo, os segundos passam, vivemos em instantes dinâmicos, que passam. No momento que se pensa que é, não é mais. Isso é presente? Ou são futuros, microscópicas hipóteses de futuro, se concretizando numa macroestrutura que chamamos de presente? Sei lá. Estou perdido demais para pensar nessas questões com clareza. Se é que alguém pensa nessas coisas com clareza...
Uma das verdades é que estou cansado. Ou sou cansado? Me canso e desisto com frequência. Não sei se quero continuar trilhando um caminho que comecei, se mudo a rota, se estaciono. Estar preso ao presente me incomoda. Nesse estágio não conseguir me projetar no futuro me frustra. Não saber qual será o final, ou os meios em que me encontrarei em vida, não me consola. Eu não sei viver o presente. Eu não consigo viver o presente. Eu não sei lidar com o presente com grandes hipóteses de um futuro medíocre. Pior é não me sentir capaz em habilidades de sair daqui. Desse estado. Minhas faculdades mentais parece que atrofiaram no sentir prazer para acobertar a dor das coisas, pessoas, lugares e momentos que passaram, que deixei e que perdi pelo caminho.
A falta de perspectiva em um dia conseguir estar feliz por longos períodos e pequenos intervalos me impede de ser feliz no agora. Mas como mudar? Como ser feliz no agora se não consigo lidar com ele e com as reverberações de passados não resolvidos?
As condições em que vivo, no contexto sócio-político em que vivo, é que não me permitem estar feliz ou eu não me permito estar feliz? Ou os dois igualmente? Ou mais um do que o outro? Qual é mais e qual é menos? Será que tenho uma resposta sincera pra isso ou me utilizarei de recursos retóricos, tal como os utilizo agora para responder com mais vazios e dúvidas? Não sei.
Eu penso muito nos outros, também. Como estão, o que pensam de mim, o que sentem por mim, como me veem. Apesar de ter me livrado e muito dessa constante preocupação, elas ainda permanecem em um outro nível. Acho que isso me impede de ser ainda mais eu. De me expressar mais como eu gostaria.
Sou infantil ou me infantilizei ou fui infantilizado. Ao menos, assim eu me sinto. Maturidade seria bem vinda agora. Pra isso preciso me reprogramar. Mas como? Já passei por coisas, muitas coisas, mas parece que amadurecer é difícil. Não é só vivenciar. É força de vontade, esforço, disposição, reprodução, teatro, arte, música, poesia, literatura, teoria, foco, força, sem fé. Fé é infantilidade humana. Acho que pode ser isso também. Ainda paira sobre mim resquícios de fé, ou de medo da não fé. Ou os dois. Sei lá.
Estou perdido, cansado e com sono.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
levado
faixas brancas passam sob meu corpo
como o tempo em que espero
por mudanças que não chegam
um relógio que não para
algumas brisas de aconchego,
temporárias.
um trânsito
entre o que sou
onde estou
e do porquê:
aquela violência que marginaliza
meus sentidos,
meu peito,
minha alma
meu ímpeto jeito
de quem não se importa,
mas está morrendo.
não quero levantar.
como o tempo em que espero
por mudanças que não chegam
um relógio que não para
algumas brisas de aconchego,
temporárias.
um trânsito
entre o que sou
onde estou
e do porquê:
aquela violência que marginaliza
meus sentidos,
meu peito,
minha alma
meu ímpeto jeito
de quem não se importa,
mas está morrendo.
não quero levantar.
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