Eu fico horas, dias, semanas, meses a pensar na forma como eu lido com os meus sentimentos. Na forma como eu os objetivo, na forma como eu os transfiro para as pessoas(s) com quem me relaciono, seja(m) essa(s) pessoa(s) amiga(s), professora(s) e professore(s), familiar(es), ficante(s), (ex-)namorado(s), etc... e nessas retrospectivas eu cheguei à evidente constatação que eu sempre saio, de alguma forma, machucado, decepcionado, irritado, enfim, saio numa sintonia completamente diferente da qual eu entrei naquela(s) relação(ões). Para não dizerem que estou me colocando como vítima injustiçada "first world's problems", reconheço que esse é um sentimento muitas vezes universal, que atinge diversas pessoas. E é isso que me faz ficar ainda mais encucado. O que acontece? Por que algumas pessoas tendem a sempre saírem magoadas das relações? Eu não sei. E não quero me apropriar das situações alheias pra tentar explicar algo que acontece dentro e fora de mim...
São momentos de tensão, desentendimento, conflitos interpessoais que me fazem passar por um desconforto não só intelectual, racional, objetivo como eu vejo em muitas pessoas. Eu sinto um intenso desconforto emocional, que se eu não expresso no ato, eu expresso na solidão do meu quarto e, algumas vezes, na representação discursiva aqui no face, porque eu levo isso daqui (muito) a sério. Considero que também faz parte da minha vida e não algo acessório completamente diferente da realidade que se manifesta fora deste meio. (Pra mim) não existe uma barreira muito precisa separando essas duas realidades. Por isso, talvez, boa parte dessas situações que me magoam são provenientes daqui. Das minhas relações "virtuais", se é que pode se dizer assim, visto que do outro lado existe um ser humano tão "real" quanto eu. Esteja ela assumindo uma personalidade e/ou identidade que é própria dela, ou não. No final das contas, nossas expressões são (quase) sempre representações não-nossas, mas adquiridas socialmente, a partir do momento que me aproprio de um sistema linguístico que não é meu e aprendo a pensar a partir dele, inserido no contexto em que ele é veiculado, mas isso é papo pra outra hora, que nada tem a ver com o que eu quero aqui discursar.
A questão é que sentir é tudo o que me é ser. Eu não sei ser sem sentir. Sem sentir amplamente, grandemente, a ponto de sempre estar disposto a arriscar, se o valor simbólico de determinada situação me parecer merecedora de um nível alto do meu esforço. Uma expectativa que, as vezes, me deixa muito avançado em relação meu interlocutor em relação aquele determinado momento, e daí sai todo um roteiro dramático no qual eu rotineiramente me encontro. Por mais que o tempo passe, por mais que eu tente, por mais consciente eu esteja disso tudo, eu não consigo mudar, não consigo prezar a racionalização extrema em detrimento daquilo que eu sinto. E é o que, de certa forma, me ajuda a lidar com o mundo, nos momentos em que estou inspirado, ou naqueles em que a vida se mostra menos amarga, por coisas boas cotidianas que acontecem e que, logo em seguida, talvez me sejam motivos de extrema melancolia.
Eu entendo o porquê tantas pessoas depositam suas expectativas em objetos materiais. Assim não dependem de lidar com outras pessoas para sentirem, seja o que for. Por isso, em vários momentos, eu amo ficar sozinho. Algo que acabo levando dentro de mim meio a uma multidão. Rodeado de pessoas, prefiro me sentir sozinho, do que ter lidar com pessoas. O que, por sua vez, me deprime de tão miserável é aquela situação.
Eu não quero ter que guardar sentimentos pra mim, os bons e ruins, para passar a imagem de equilíbrio que todo mundo quer vender e comprar. A qual comprei inúmeras vezes, e paguei com o alto preço de viver em constante depressão (clinicamente diagnosticada) silenciosa, escondida, maquiada... apesar de que, expressar nem sempre é garantia.
Talvez eu e todos aqueles que me são iguais, semelhantes e parecidos sejamos mesmo os tortos da coisa. Talvez essa busca constante por um eu, por uma identidade, por um lugar no mundo, por compreensão, por afeto e carinho, por uma realidade melhor, pela felicidade, pelo prazer, pelo bem-estar seja o problema. Talvez eu deva aprender a valorizar o eu no aqui e no agora mesmo que o aqui e o agora seja o pior momento. Um momento de incertezas e fragmentações. De vazio existencial. De falta de sentido. Talvez tenhamos que transportar a expectativa do amanhã para o hoje, mesmo que isso represente uma frustração pela condição material de impossibilidade. Talvez o amor-próprio seja a resposta para todas as perguntas, mesmo que você esteja aprendendo a se amar e veja que nem assim as coisas são mais coloridas quanto pintam os livros de autoajuda, os conselhos amigos, as filosofias de vida e de relacionamentos que muitas vezes se preocupam consigo apenas, e se esquecem do outro, seguindo assim uma suposta liberdade. Ou talvez seja tudo mesmo uma merda e por isso temos que aproveitar essa vida pra fazer coisas boas para os outros, pois isso uma hora irá nos ajudar. Talvez seja melhor tomar um remédio e praticar essas lobotomias químicas que a galera da modernidade adora. Talvez façamos tudo isso e continuemos na mesma. Talvez. Tal vez. Era uma vez.