quarta-feira, 12 de março de 2025

Sem certezas

Não sou uma pessoa de certezas e nos últimos anos tenho lutado contra a rigidez do meu próprio julgamento sobre mim. Todo dia uma batalha. Perco em um dia, ganho em outro, e assim vou colocando um pé a frente do outro, equilibrando o movimento da vida.

Todos temos caminhos, muitas vezes árduos, pelos quais seguimos. E ninguém está só nessa jornada, muito embora seja tentador olhar para si mesmo como quem carrega o peso sozinho do mundo nas costas. E é engraçado olhar para tudo isso após um tempo e confrontar a própria insignificância. Perceber a ambivalência e a contradição que vive em mim e em cada um de nós. É um convite para que aceitemos e recebamos o outro real. De carne e osso. Humano. E quase sempre diferente de mim. É claro que há premissas inegociáveis referentes a defesa do justo, da diversidade e da igualdade que me são caras, mas eu jamais espero me relacionar apenas comigo mesmo. Com meu reflexo no espelho, esperando que tudo seja exatamente como eu fantasio ou penso como deveriam ser. Se eu decido me relacionar, eu quero dialogar, aprender, conhecer e mergulhar naquilo que me é diferente e que me hipnotiza e me faz querer me aprofundar. Não só, pois no viver, não sou nenhum antropólogo ou psicólogo, sou gente, embora ainda esteja me acostumando com isso. Mas apostar, escolher, vulnerabilizar-me, e me deixar ser transformado pelo que tanto me fascinou.

Não quero dizer que não vou errar, não vou me contradizer e nem que serei sempre positividade. E nem espero que não me aborreçam, magoem ou decepcionem. Pois o que eu quero é viver, sentir, e abraçar o mistério do amanhã como uma aposta no melhor que posso contribuir na construção de algo pelo qual valha a pena viver e se arriscar. Levo sempre minhas bagagens? Claro. Considero a bagagem do outro? Óbvio! Mas o que eu levo não é o que está a minha frente. Se assemelha? Existem padrões? Pelo que parece, em algum nível, sempre existirá. Mas também não me vista da cabeça aos pés com o que trouxer. Eu não vim do mesmo lugar, não tenho a mesma história e experiências de um outro, portanto não me cabem estas vestes que muitas vezes querem me colocar.

Não sou de certezas, já disse. Sou de sentir, de pensar e de agir. Passos em falso vão ocorrer. Mas as decisões sobre o que quero, posso me demorar, ou adiantar, mas irei tomar. E quando tomo, estou disposto a lidar, preparado ou não para os caminhos, e também perigos, a que podem me levar.

Sempre encaro meus monstros internos em minhas relações. Isso não torna ninguém inerentemente capaz de me amedrontar. Sem garantias de que também seja.

E penso sempre: como ainda buscamos garantias em relações humanas sem vivê-las enquanto se apresentam? O que é necessário para além de todas as condições possíveis para florescer? E claro, a possibilidade de fracassar.

Eu, na minha loucura, costumava fugir do que me era possível e fazia bem e vivia na busca do impossível, talvez por achar que não merecia ser amado como eu queria e ficava provando meu valor, até não dar mais. Ainda hoje o faço, mas dessa vez escolhi e amei o possível. O real. E mesmo assim fracassei. Eu já não era eu, fui transfigurado em um despertador de traumas e inseguranças por minimamente apresentar minha humanidade falha e contraditória e presente em todos. Eu não posso dormir com essa culpa e responsabilidade sobre mim. Eu não posso assumir que tenha tido as piores atitudes, se a dimensão real das minhas ações não tenha fugido do que qualquer ser humano pode fazer. Errar sem querer errar. Assumir. Pedir desculpas e tentar dialogar para então continuar construindo aquilo tudo que estava em construção. Parceria, diálogo, espaço para a escuta, para o erro e para o perdão e pra transformação. Silenciar o ego, ceder quando o outro precisa de mim e eu do outro. Permitir que o tempo de processar os sentimentos seja regra para se ir a um outro estágio de relação. De uma maturidade que não houve em nenhuma das partes. Era puro desejo de crescimento mútuo. 

Mas quem sou eu senão um transfigurado em outro que não eu mesmo por uma bagagem que, de longe, não era minha?

Eu não tenho certezas, mas eu sei que amo. E só ele não basta, é verdade. Mas quando amo, é a ele que sirvo, que rego e deposito minha fé de que dele algo lindo, complexo e transformador surgirá. Estou de peito aberto a quem este amor servirá. A quem olhar nos meus olhos presenciando o próprio mar e me dizer que vale a pena me amar.


São Vicente, 13 de março de 2025.

domingo, 7 de novembro de 2021

 Me chamem de tudo, menos de indiferente.
Sinto demais...
Sinto muito!


01 de novembro de 2021

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Deixo aqui de contar nos dedos os dias que faltam,
que faltam no meu dia-a-dia,
faltam na gélida temperatura do meu lençol,
das minhas mãos, de minh'alma.
Enfim, concretiza-se o presságio
do karma já revivido incalculadamente.
Mas por adoração a dor,
nisso permaneço,
nisso me afirmo,
nisso distingo-me.
E assim sigo, vez mais uma
nas peripécias e enganos
do sentido mundo
que fiz a escolha de pertencer.

16 de janeiro de 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Excremento vive!

Quero vomitar de tanto ser
E voltar a devorar o mundo com todas as forças do que me restou
ser que se transformou
E então esvaziar-me de toda a esgotidão
Tratar-me
Purificar-me
Ressignificar-me
Me plantar em solo e nunca perder de vista as estrelas
E do mistério da escuridão vivenciada e a se viver
daquele fel que queimou minha garganta e apodreceu meu paladar.
Refluxo, mal estar e caganeira.
Tontura e desorientação, muitas vezes
Fezes, vomito, mijo, suor, saliva e
Porra! virei.
Estou com fome
devorarei, doravante, a existência até que se não possa mais existir.
Segurar
Desistir
Evacuar
Adubar
Alimentar
Para que me renasça no mundo
em algum lugar
E finalmente res de trás pra frente
como deve ser.

domingo, 25 de setembro de 2016

Autorretrato

Sumi mais uma vez, e cá estou com algumas inferências discursivas na mesma tentativa de compreender o que e quem sou. Acredito que estou chegando cada vez mais perto. Primeiro porque decidi não consultar mais memórias fabricadas. Dessa vez tenho tentado olhar para o passado como parte constitutiva de quem me tornei e não daquilo que gostaria de ter me tornado. Tem sido difícil aceitar algumas coisas, como, por exemplo, que estive em negação em relação a morte da minha mãe e como isso me afetou. Ou então, apesar de ter meu pai como meu herói, como nossa relação tem sido um tanto quanto destrutiva em certo ponto. Essa força controladora que paira sobre mim nada mais é do que a voz patriarcal de um silêncio que se impõe; afinal, mal conversamos nossa vida toda. Mesmo assim sinto que tanto já fora dito. É assustador como o silêncio reverbera de uma forma igualmente repressiva.
Aquela psicóloga estava certa. Precisamos nos perder, precisamos nos permitir estar perdidos para que possamos nos encontrar. Aceitar nossa fragilidade e limitação. Compreender que precisamos daquele cuidado de si que negligenciamos durante toda uma vida de fuga e de negação de sofrimentos profundos que até então não sabíamos que existia. Aquela raiva contida do passado, essa imagem de bom moço e sorrisinho forçado que ainda persistem são sequelas. Esse teatro de melhor aluno, melhor amigo, namorado, ou melhor qualquer coisa precisa acabar. Infelizmente ela tem se manifestado através do medo de viver e esbarrar na destruição de expectativas alheias criadas todas em cima de uma pessoa que nunca existiu.
Eu nunca existi de verdade. Minto. Minhas explosões eram extremamente genuínas. Minha antipatia por alguém baseada em - veja só! - preconceitos. O desleixo e  a preguiça também foram expressões daquilo que vinha me tornando. Só reconheço, de fato, isso hoje. Ainda assim, alimentei esse modo de ser narcísico que se admira e exalta a própria imagem, ainda que essa imagem não seja um reflexo verossímil daquilo que se é de verdade, por muito tempo iludiu. Por muito tempo imaginei ser alguém muito melhor do que era. E a sorte, infelizmente, contribuiu para que assim eu continuasse achando. Uma faculdade, um intercâmbio, boas notas - e reconheço que elas só existiram através de grandes amizades, vamos combinar... Eu sozinho fui e ainda sou um fracasso, um nada. No final das contas, embora narciso eu fosse, aquele resquício de consciência que mais parecia a serpente que levara Eva a cometer o primeiro pecado ainda me sussurrava o extremo oposto do que tentava externar em discurso. Horrendo e medíocre. Assim foram construídas as bases desse manicômio interno.
Essa polarização não existe, é claro. Sei bem disso. É ai que as narrativas únicas nos levam. Confusões, conflitos... Como podemos ser bons e maus ao mesmo tempo, não é mesmo?
Mas ser humano é isso mesmo. E é isso que preciso apreender. E é com isso que preciso trabalhar para aceitar a realidade tal e qual ela é e ajudar a transformá-la de acordo com um senso ético e moral para além do status quo que me moldara nessa bagunça emocional que hoje sou.
Ainda me vejo tomado pela inércia que continua a alimentar medos e inseguranças na vida prática. Mas sinto que aos poucos estou mudando e me fortalecendo. Só não sei quando me sentirei apto a levantar e andar.

Tic... tac... tic... tac... tic... tac...

Refletir parece ser o princípio da existência humana.


domingo, 14 de agosto de 2016

O maior alívio de uma pessoa em dor, física ou emocional, deve ser os segundos que antecedem seu último fio de consciência. A certeza de que acabou. Para os que tem fé é um mundo que os aguarda para que haja redenções. Para os céticos, talvez um empolgante fim, a certeza de um reaproveitamente de tudo o que se foi de forma prática. Matéria orgânica sendo reaproveitada pela natureza e suas leis. Para outros céticos, ainda a incerteza de, quem sabe, uma próxima desventura. Afinal, desnudar-se de crenças enquanto ato político é mais complexo do que se parece. Uma vez no assentado no subconsciente, quem sabe quando e onde as verdades de outrora não se desenterrarão.
Acho que esse último, acaba por me descrever com honestidade. Mas da janela pra fora, prefiro mentir. Ultimamente tenho deixado a cortina aberta. Descuido intencional pra ver o que acontece. Se alguém pelo olhar me puxa pelo braço. Se alguma voz me indica o caminho que me afaste dos sussurros da morte.
Como estamos todo sozinhos dentro de nós mesmos, nascemos assim e não diferente morreremos, vou percebendo que levantar-se, ainda que diante de mãos estendidas, segurando-te, o principal esforço para manter-se de pé e caminhar é o de dentro. É o de uma subjetividade fortalecendo-se

Campainha tocou. Acabei de ter que justificar pra outrem o luto da família. A morte de uma prima distante. Morava aqui do lado. Significou uma doce amizade de infância. Verônica. Nome forte. Sempre imaginei dar o nome pra minha filha de Maria Verônica. Uma mãe que queria ter uma filha e uma filha que precisava de uma mãe. Ao menos, é assim que ouvi dizerem. E sabe como é, né? Tudo o que ouvimos fica na nossa mente...

...me perdi.  Talvez eu volte e continue. Talvez não. Não sei.